segunda-feira, 16 de novembro de 2009

18:30

A tarde tem melancolia
Tem coisa que vale mais do que valia
Tem sono e tem café
Tem gosto de final da semana
E saudade de fim de dia

A tarde tem um conforto
e uma bonomia
que só tem quem se recolhe quando a noite principia

A tarde tem preguiça
no quarto, no almoxarifado e na padaria
A tarde tem alegria
pro boêmios que levantam
e também pra gente banhada
que espera a cama macia

A tarde tem a calmaria
do vento quente das horas compridas
e a correria
dos ônibus cheios de tarefas cumpridas

A tarde que é a hora
de quem vive e de quem vivia
dessa cor indefinida
que é meia-noite e meio-dia.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Eu vi o amor cruzar a rua e ele tinha bem seu rosto.
Não sei se não me viu ou se não me reconheceu em traje de preposto.
Mas não tem tristeza não. Porque o amor não é falta de alegria. É falta ponto.
Só porque eu não vou gravá-lo cuneifórmico nas suas coxas, não é porque não existe. É que agora, por uma vez, vou exercitar a rebeldia.
E vai ser essa inércia meu protesto.
O mesmo da geração que é sua e minha.
E também, vou ver se escrevo uns versos
em que de mim
não haja linha.

domingo, 1 de novembro de 2009

uma cidade

Por quarenta e oito horas houve uma cidade.
Suspensa em pilotis, de habitantes pássaros
da mesma caligrafia.

De histórias do bem e de outros países,
uma que era mil.
Cidade da brisa de hálito quente,
de copos cheios, de cachos no chão, do sono profundo.

Do cheiro que eu trago ainda na roupa puída.
Cidade que não era minha.
Cidade do amor, cidade da despedida.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

gênese

Um dia um homem com sede viu um coco. Uma caixinha verde com um guizo d'água. Água pura, guardada. Água doce e reservada nesta caixa, hermeticamente fechada. Para abri-la tentou o que pode: bateu, chutou, esfregou. Com mais sede ainda, quase desistiu, mas como numa mágica, achou um ponto exato e fez seu furo. A distância entre ele e o líquido completo era apenas o ar penetrável. Sorveu-o e deleitou-se em tranquilidade e energia.

Um dia, um homem com sede - sede de outro tipo, mas que naquele tempo talvez se sentisse do mesmo modo já que as palavras ainda eram moldáveis, mas as sensações eram mais- viu uma boca. Água líquida e luminosa em um orifício vermelho. Uma abertura gelatinosa. Para tê-la, tentou o que pôde: mostrou-se, urrou, lamentou. Com mais sede ainda, quase desistiu, mas, numa mágica, foi exato e a boca sorriu. A distância entre ele e o que o completava era apenas o ar penetrável. Sorveu-o e deleitou-se em tranquilidade e energia.

Assim inventou-se o beijo. Duas semanas depois, inventou-se o amor, que era líquido, doce e matava todas as sedes.

primeira pessoa

Meu exorcismo. Meu pare de sufrir, meus demônios que vão. Minha febre que vem forte e redentora. Quarenta graus de sentimento postos pra fora. Um vômito dos choros engolidos todo o dia. Meu leite, meu cuspe, meu gozo. Minha vida que escorre involuntária. Meu rio que leva minha tristeza diluída. Meu fórceps que me arranca de mim. Meu parto, minha escrita.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Dúvida

Eu e você de novo, meu mal, minha companhia.
Nas minhas tardes, minhas roupas,
nas olheiras das noites que você transforma em dias.

Meu segredo, minha covarida. Mas minha, tão minha que, às vezes, um pouco alegria.

Me põe no colo, me bate, me guia.
Divide um café comigo.
Deita comigo, vadia.


Aqui do meu lado, tão dentro,
ora quente, ora fria,
Mas tão sempre e sem fim,
não sei, Tristeza,
eu que gosto de você
ou você que gosta mais de mim?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Bravo!

Aplausos para a intérprete. A grande intérprete que entra no palco deslizando a trinta centímetros do chão. Aquela que conhece cada detalhe dele, já que ali nasceu e ali foi vestida em cortina de veludo.

A grandíssima artista que conhece cada minuto da duração dos aplausos que se seguirão, que os domina e os rege em gestos delicados de agradecimento. Aquela que seduz o público paralisado, que o assusta e que o faz rir.

A diva generosa e severa. A presença firme e exata cujo sorriso é uma pirueta mortal perfeita para os nossos corações apreensivos. A potência na voz e no gesto.

Aquela que é a completude de quem conhece o mundo pelos mil rostos inertes à sua presença. Um mundo que é escuro, claro e de pé. Um mundo em que a satisfação é imediata, sonora, explosiva e onde o medo ficou pra trás num canto de coxia, em um tempo que já passou.

Se os poetas descem às profundezas atrás do que nos faz humanos, os intérpretes são os ourives que lapidam esses sentimentos recolhidos para que, nas tardes de domingo, nossos olhos se deleitem com seu brilho, que é espelho deles e também nosso.